No dia em que celebramos a solenidade da Anunciação e da Encarnação do Verbo, recordo-me da primeira vez em que visitei a Santa Casa de Loreto. Já conhecia a história do milagre que levou, misteriosamente, a casa da Sagrada Família de Nazaré a esta cidade italiana, no século XIII. Fascinava-me pensar que os santos anjos haviam transladado aquelas paredes tão preciosas, protegendo-as. E quando eu tive a oportunidade de visitar a Itália, fiz questão de desviar a minha rota de viagem para conhecer o santuário. 

No entanto, devido a um contratempo na viagem, atrasei-me e cheguei na basílica bem no horário em que estavam sendo fechadas as portas. Tinha vindo direto da estação ferroviária, a pé, carregando uma imensa mala roxa, correndo esbaforida, pensando que perderia a visita ao santuário. Diante das portas fechadas, implorei ao segurança que me deixasse entrar pelo menos para rezar uma Ave-Maria na Santa Casa. Ele tentou me fazer entrar no santuário clandestinamente, mas logo um frei franciscano veio gritando, em italiano, dizendo que a basílica já estava fechada. Meu coração doeu por dentro, pensando que havia vindo de tão longe, carregado aquela mala imensa morro acima, para não conseguir entrar no santuário por poucos minutos. Eu já estava lamentando interiormente o meu triste azar, quando uma voz interior me impulsionou dizendo: “Vá!”

O início da vida sempre foi entendido desta forma, até a década de 1960 [1]. Nesta época, surgia a primeira pílula (o Enovid), o primeiro DIU (o Lippes Loop), as primeiras experiências com células embrionárias e fertilização in vitro. Como justificar a manipulação desses embriões neste mercado altamente lucrativo? Como justificar os chamados “abortos ocultos” que podem ser causados pelo DIU ou pela pílula anticoncepcional (pois esses métodos podem agir impedindo a implantação do embrião já formado na tuba uterina)? 

Para permitir que as pesquisas avançassem, a American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) [2] e a International Federation of Gynecology and Obstetrics (FIGO) [3] mudaram o conceito de início da gravidez para o momento da implantação. Não houve uma busca pela verdade, mas uma adequação aos planos dos poderosos.

Essa redefinição foi a pequena brecha necessária para a implantação de uma “cultura da morte”. A contracepção abriu as portas para o aborto. Em menos de 15 anos, os Estados Unidos passaram de um país que proibia a contracepção para um país que permite às mães matar os próprios filhos em seus ventres. Atualmente, existem países nos quais esse assassinato é permitido até os nove meses de gestação. E em alguns lugares, já se discute a liberação do infanticídio.

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